Consumo e sustentabilidade em Círculos Freireanos de Cultura: uma experiência com estudantes do Sul do Brasil

Número 28. EL TEMA. 19/2/2019
Autor: João Paulo Schultz. Secretaria de Estado da Educação do Paraná. Marília Andrade Torales Campos. Setor de Educação. Universidade Federal do Paraná.

RESUMEN

Este artículo presenta los resultados obtenidos a partir de una investigación que objetivó analizar la experiencia de formación con el Grupo Ambiental de una escuela pública del municipio de Curitiba, Estado de Paraná, Brasil. De carácter cualitativo, la investigación involucró a estudiantes del 8º año de la Enseñanza Fundamental de una escuela pública. El enfoque del tema generador sobre el medio ambiente con énfasis en el consumo responsable se dio por medio del Círculo de Cultura (Freire, 1987). Así, la metodología se fundamentó en el estímulo al diálogo y la interacción entre los participantes. En el transcurso del proceso, se realizaron encuentros sistemáticos con los estudiantes para proponer debates y vivencias colectivas para reflexionar sobre posibilidades de transición a sociedades sostenibles. Entre los resultados, se resalta que del trabajo continuo con el Grupo Ambiental emerge una vía posible para garantizar el desarrollo de acciones ambientales y ampliación de la cultura de la sustentabilidad en el espacio escolar.
 

Este artigo apresenta os resultados obtidos a partir de uma pesquisa que objetivou analisar a experiência de formação com o Grupo Ambiental de uma escola pública do município de Curitiba, Estado do Paraná, Brasil. De caráter qualitativo, a pesquisa envolveu estudantes do 8º ano do Ensino Fundamental de uma escola pública. A abordagem do tema gerador sobre o meio ambiente com ênfase no consumo responsável se deu por meio do Círculo de Cultura (Freire, 1987). Assim, a metodologia se fundamentou no estímulo ao diálogo e a interação entre os participantes. No decorrer do processo, foram realizados encontros sistemáticos com os estudantes para propor debates e vivências coletivas para refletir sobre possibilidades de transição a sociedades sustentáveis. Entre os resultados, ressalta-se que do trabalho contínuo com o Grupo Ambiental emerge uma via possível para garantir o desenvolvimento de ações ambientais e ampliação da cultura da sustentabilidade no espaço escolar.


This paper presents the results obtained from an investigation that aimed to analyze the training experience with the Environmental Group of a public school in the municipality of Curitiba, State of Paraná, Brazil. Of qualitative nature, the investigation involved students of the 8th year of the Basic Education of a public school. The focus of the generating theme on the environment with an emphasis on responsible consumption was given through the Culture Circle (Freire, 1987). Thus, the methodology was based on encouraging dialogue and interaction between participants. In the course of the process, systematic meetings were held with the students to propose debates and collective experiences to reflect on the possibilities of transition to sustainable societies. Among the results, it is highlighted that the continuous work with the Environmental Group emerges a possible way to guarantee the development of environmental actions and expansion of the culture of sustainability in the school space.
 

PALABRAS CLAVE
Educación ambiental Círculos de Cultura Estudiantes Grupo Ambiental Consumo Responsable



Consumo e sustentabilidade em Círculos Freireanos de Cultura: uma experiência com estudantes do Sul do Brasil

Consumption and sustainability in Freirean culture circles: an experience with Southern Brazilian students

 

Introdução

Esta pesquisa teve como objeto de estudo o Grupo Ambiental de uma escola pública do município de Curitiba (Estado do Paraná, Brasil). Um Grupo Ambiental, no âmbito escolar, pode ser compreendido como um coletivo integrado por professores, estudantes e demais membros da comunidade escolar, com objetivos comuns e que visa o desenvolvimento e a implementação de ações pedagógicas e interdisciplinares referentes às questões ambientais, sociais e culturais pertinentes a comunidade escolar. Tais ações são voltadas à sensibilização e a tomada de consciência sobre a realidade ambiental para compreender, proteger, preservar e conservar o meio ambiente, bem como para problematizar e refletir sobre formas de desenvolvimento social e econômico que considerem, ou não, os princípios de sustentabilidade em sua constituição.

O estudo do Grupo Ambiental se justifica pela importância das temáticas abordadas e pela necessidade de potencializar a Educação Ambiental no contexto da educação escolar e na formação da cidadania. Na estrutura curricular das escolas públicas brasileiras, a Educação Ambiental não possui um espaço/tempo definido e, na maioria das vezes, não está institucionalizada no Projeto Político Pedagógico das unidades escolares, o que determina limitações no trabalho dos professores. Conforme Guimarães (2007), é importante ressaltar que, apesar da difusão crescente da Educação Ambiental nas escolas, essa ação educativa se apresenta fragilizada em suas práticas pedagógicas, pois não se inserem em processos que conduzam a transformações significativas da realidade. No contexto brasileiro, apesar de ser considerada como um tema transversal ao currículo, a Educação Ambiental é comumente tratada de forma esporádica e descontinuada nos planos de trabalho dos professores.
 



(Imagen Flickr)


Desse modo, considerando que tais práticas de Educação Ambiental precisam ser potencializadas, nos perguntamos como a experiência desenvolvida com o Grupo Ambiental poderia sensibilizar os estudantes para a mudança (ou transformação) de hábitos, valores e comportamentos em relação ao meio ambiente e ao consumo? Para tentar responder a esta indagação, buscamos, a partir da constituição de um coletivo de estudantes do 8º ano do Ensino Fundamental, problematizar a temática do consumo responsável por meio da organização de Círculos de Cultura (Freire, 1987).

 

A Educação Ambiental no contexto escolar

O campo conceitual e as correntes que compreendem as pesquisas em Educação Ambiental são amplos, complexos e polissêmicos, e têm evoluído ao longo da história de acordo com as conjunturas políticas, ambientais e socioculturais em diferentes espaços. Considerando-a como um subcampo da educação, em entrevistas publicadas por Arias Ortega (2012), González Gaudiano, Leff, Sauvé, Caride Gómez, Meira Cartea, entre outros, apontam que a Educação Ambiental é uma área do conhecimento cujo campo encontra-se em construção e/ou consolidação, o que lhe dá diferentes contornos, de onde emergem desafios e possibilidades.

Nesta pesquisa, como forma de balizamento conceitual, tomamos a definição encontrada na Política Nacional de Educação Ambiental brasileira (1999), que considera a Educação Ambiental como “processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades”, como uma das orientações que permitem compreender e interpretar as implicações da Educação Ambiental no contexto formativo das escolas. Outros autores (Caride Gómez, 1991; Sauvé, 2005) complementam essa definição e serviram de apoio para a intepretação dos dados. Associando esses conceitos ao lócus e objeto da pesquisa, ressalta-se que consideramos a Educação Ambiental como uma dimensão da educação escolar. E, é neste sentido também que Oliveira e Oliveira (2012) põe de relevo a compreensão de que a escola é um espaço privilegiado para o desenvolvimento e o fortalecimento das práticas de Educação Ambiental, tendo em vista que ela possibilita o exercício da sensibilização e da tomada de consciência sobre a realidade ambiental.
 



(Imagen. Educación ambiental en escuelas de Curitiba "Planeación urbano de Curitiba")
 

Para Carvalho (2004), a educação, e, em efeito a Educação Ambiental, produz cultura e transforma a natureza, atribuindo-lhe sentidos, trazendo-a para o campo da compreensão e da experiência humana. Esta abordagem nos permite pensar o processo de transição para sociedades sustentáveis a partir de mudanças na cultura e nos valores que sustentam a dinâmica social. Pois, ainda de acordo com a autora, somos envolvidos pelas condições ambientais, ao mesmo tempo em que nós, como seres simbólicos e portadores de linguagem, produzimos nossa visão e nossos recortes da realidade, construindo percepções e formando cultura.

 

A escola como um espaço educador sustentável

No atual cenário político e econômico, muitos países enfrentam uma crise ambiental decorrente, por um lado, do modo capitalista de produção e, por outro, pelos valores sociais e pelos padrões de consumo por ele estimulado, além de outros fatores. Neste contexto, no qual a natureza passou a ser vista apenas como uma fonte de exploração dos bens naturais, faz-se necessário repensar os modos de vida assumidos por diferentes sociedades a partir da problematização dos elementos simbólicos que permeiam a cultura, atribuem identidade aos grupos e cunham seus comportamentos e ações.

Com o intuito de refletir sobre o papel da escola na busca de alternativas em relação à problemática ambiental, emerge, a luz dos princípios de sustentabilidade, a proposta de fortalecer a dinâmica escolar como um “espaço educador sustentável”. Este termo está associado às escolas que praticam a Educação Ambiental de maneira ativa, continua e comprometida com transformações sociais. A ideia parte das iniciativas que já ocorriam nas escolas para pensar coletivamente as propostas que consideram o currículo, a gestão e o relacionamento com a comunidade como elementos para o fortalecimento da cidadania. Assim, as Escolas sustentáveis são definidas como “aquelas que mantêm relação equilibrada com o meio ambiente e compensam seus impactos com o desenvolvimento de tecnologias apropriadas, de modo a garantir qualidade de vida às presentes e futuras gerações. Esses espaços têm a intencionalidade de educar pelo exemplo e irradiar sua influência para as comunidades nas quais se situam”. (Brasil, 2013: 2)
 



(Imagen Flickr)


Todavia, na atual conjuntura socioeconômica, é preciso considerar que existem muitas limitações e dificuldades para efetivar ações coerentes com a prática de uma escola sustentável. Se considerarmos os princípios capitalistas que estão impregnados na cultura de diversas sociedades e a carência de recursos e políticas públicas para o desenvolvimento de uma escola sustentável, esta realidade se torna ainda mais evidente. Porém, ao

 “desejarmos a construção de sociedades sustentáveis que beneficiem a todos os elementos com os quais compartilhamos este planeta, precisamos superar as limitações (...), o que exige políticas públicas voltadas para a inclusão e a participação”. (Sorrentino, 2011: 23)

A escola representa um espaço de trabalho fundamental para desenvolver o ensino e fortalecer as práticas de Educação Ambiental (Torales, 2006). Daí a importância e a necessidade de (re) pensarmos ações alternativas para fortalecer as práticas escolares e a Educação Ambiental como caminho para a transformação sociocultural e apontar medidas concretas e imediatas face aos desafios socioambientais.

 

O Círculo de Cultura Freireano

A Educação, como um processo humano e social que acontece por meio da interação entre as pessoas, é influenciada por diferentes formas de linguagem e de apropriação do conhecimento, mediados por processos axiológicos que podem influenciar ou determinar transformações culturais. Nesta tessitura, com o objetivo a estruturação do Grupo Ambiental – objeto de estudo desta pesquisa – e considerando a linguagem como forma ou processo de interação entre as pessoas, optou-se pelo Círculo de Cultura (Freire, 1987) como método de aproximação ao campo empírico, como apontam Franco e Loureiro (2014) ao dizer que,

“O Círculo de Cultura Freireano, espaço educativo onde transitam diferentes subjetividades e convivem diferentes saberes, assume a experiência do diálogo de forma coletiva e solidária em todos os momentos do processo, de tal modo que seu produto, o conhecimento gerado, seja resultante dessas situações”. (Loureiro; Franco, 2014: 171-172)

Assim, o Círculo de Cultura emerge como uma possibilidade para o enfrentamento de situações problema no contexto educativo-ambiental e como via de diálogo, interação e construção coletiva de conhecimentos e novas visões de mundo. Por suas características, esse método possui potencial para contribuir no enfrentamento das necessidades que professores e estudantes apresentam em suas relações dialógicas e no desenvolvimento da Educação Ambiental nas escolas.
 



(Imagen: Círculo de Cultura Freireano 1)


A concepção de educação freireana tem influenciado muitos estudos e pesquisas no campo da Educação Ambiental, tendo em vista que a relação sociedade-natureza evidencia a urgência de se construir alternativas teóricas e epistemológicas sob novas bases metodológicas. Nesse sentido, o método pode se constituir em um caminho não apenas de construção do conhecimento, mas nos orientar em direção a uma educação emancipatória e, quiçá, mais transformadora.

 

Tema gerador: o consumo responsável

Sendo o Círculo de Cultura uma estratégia baseada nas vivências prévias e na cultura em que cada participante está imerso, fez-se necessário elaborar um diagnóstico acerca da realidade socioambiental e biográfica dos estudantes envolvidos na pesquisa. Este processo permitiu identificar um tema gerador coerente com os interesses e as vivências cotidianas dos participantes. Conforme os dados da realidade e estilos de vida da região da escola, o consumo responsável foi definido como eixo dos debates e referente para dinamizar o diálogo no Círculo de Cultura.  Este processo de definição do tema gerador é importante, pois

 “(...) é uma questão de opção que traz em si, implicitamente, uma ideologia que se explicita na intencionalidade e na diretividade pedagógica dada na problematização, podendo, portanto, estar a serviço da manutenção ou da mudança / transformação do nível de consciência dos sujeitos da ação educativa e, consequentemente, a serviço da manutenção ou transformação da sociedade”. (Loureiro; Franco, 2014: 176)

Em relação ao consumo responsável, vale ressaltar que o avanço do sistema capitalista, bem como o vertiginoso crescimento demográfico verificado especialmente após a Primeira Revolução Industrial em meados do século XVIII, tem contribuído significativamente para um aumento crescente da produção e, por conseguinte, também para a expansão do consumo.
 



(Imagen: ecovamos)
 

“É natural” que o sistema capitalista continue, incessantemente, o seu processo de incentivo ao consumo irresponsável e/ou desnecessário, por meio de grandiosas e espetaculares campanhas publicitárias e de marketing, pois o consumo é o motor deste sistema socioeconômico. Todavia, apenas uma parcela pequena da população acaba servindo-se deste sistema, perpetuando padrões de bem-estar e qualidade de vida, enquanto que o restante das pessoas, é cruelmente vitimizada ou explorada pelas desigualdades geradas na base dos mecanismos que sustentam tal sistema.

Canclini (2006: 60), ao refletir sobre a influência do modelo de desenvolvimento capitalista na definição do conceito de cidadania, nos convida a refletir sobre questões como: O que significa consumir? Qual é a razão, para os produtores e para os consumidores, que faz o consumo se expandir e se renovar incessantemente? Ao tentar dar resposta a isto, o autor define o consumo como o conjunto de processos socioculturais em que se realizam a apropriação e os usos dos produtos. Como parte da cultura humana, este processo merece ser repensado a luz de novos tempos e de seus desdobramentos e implicações com a realidade social e ambiental. Da mesma forma, utilizando-se dos conceitos de identidade e cultura, Canclini (2006) chama a atenção para a forma como as mudanças na maneira de consumir alteraram as possibilidades e as formas de exercício da cidadania, bem como destaca a necessidade de compreender as políticas e as formas de participação para (re) pensar o significado de ser cidadão e de ser consumidor. Seus estudos embasaram e possibilitaram importantes reflexões sobre o tema gerador escolhido para a pesquisa, pois um dos princípios da Educação Ambiental e do Círculo de Cultura é de promover a reflexão crítica de temas e problematizar a realidade dos sujeitos envolvidos, neste caso, os estudantes.

 

Caminho metodológico

A experiência foi analisada com base em uma pesquisa qualitativa com o Grupo Ambiental de uma escola pública localizada na região sul do Brasil via Círculo de Cultura. O grupo foi composto por quinze estudantes do 8º ano do Ensino Fundamental que foram convidados a participar da experiência após a apresentação da proposta de trabalho.

Visando comparar os comportamentos e as percepções dos estudantes ao participarem da experiência nos Círculos de Cultura, foram diagnosticados os conhecimentos prévios e as impressões dos participantes sobre a temática do consumo responsável (tema gerador), por meio da aplicação de um questionário diagnóstico. Para garantir o anonimato dos participantes presentes nos encontros, os mesmos foram identificados pela letra P seguida de um número.

No decorrer dos encontros foram realizadas diversas atividades para apresentação de dados relacionados ao tema em debates e estímulo a discussão. Foram realizadas análises de textos, vídeos e imagens com o objetivo de promover diálogos sobre os diversos aspectos da problemática ambiental com ênfase no consumo responsável.

A faixa etária dos participantes era de 12 a 14 anos de idade. Pelas características desta fase do desenvolvimento e características pessoais, alguns participantes demonstraram uma postura tímida durante as discussões, tendo em vista que muitos ainda não se conheciam e aquela era a primeira oportunidade em que realizavam uma atividade juntos. Na medida em que os encontros e os debates avançaram, por estarem mais familiarizados com os membros do grupo, os participantes se mostraram mais ativos e desinibidos.

As ações ocorreram ao longo de seis encontros realizados semanalmente em contraturno escolar, tendo em vista que no Brasil a carga horária escolar diária é de meio turno, ou seja, quatro horas. As técnicas de coleta de dados tiveram como base o método freireano do Círculo de Cultura, tomando o processo de consumo em sociedades capitalistas como tema gerador. Os dados coletados foram analisados sob o enfoque qualitativo e por meio da análise de conteúdo.

 

Resultados: das concepções prévias dos estudantes às emergências de novas possibilidades de compreender a realidade

Nos resultados da pesquisa foi possível observar que a relação Homem, Sociedade e meio ambiente ainda é um campo do qual emergem muitas dúvidas. Nota-se que temas como o consumo, a geração de resíduos, a poluição, a reciclagem e o desmatamento são expressões que marcam as noções que os estudantes explicitam em relação ao meio ambiente. No entanto, buscamos compreender os significados e simbolismos que vão além deste universo, tendo em vista que a Educação Ambiental precisa ser compreendida como um processo educativo mais amplo, de caráter pessoal e coletivo, no qual os indivíduos e a comunidade tomam consciência de sua realidade visando à compreensão e transformação do mundo (Caride Gómez, 1991).

Em relação às atitudes dos estudantes sobre meio ambiente e consumo, foi possível identificar que houve uma divisão clara de posicionamentos no grupo. Os participantes P1, P2, P4, P10 e P12 demonstraram preocupação no que se refere aos cuidados com o meio ambiente e suas práticas de consumo. Por outro lado, os participantes, P7, P8, P9 e P11 reconheceram que suas relações com o meio ambiente poderiam ser melhoradas, mas não explicitaram as implicações que decorrem da questão.

Apesar da diversidade de posicionamentos, fica clara a relação que os estudantes estabelecem entre a temática da produção, do consumo e da geração de resíduos com sua vida cotidiana, com as características de seu fazer cultural e do exercício de sua cidadania, conforme apontam os estudos de Canclini (2006) ao relacionar os conceitos de “cidadão” e “consumidores” como elementos dinâmicos que exercem mutua influência entre si.

Nesta mesma direção, Carvalho (2004) corrobora ao afirmar que a educação, como produtora de cultura e transformadora da natureza por meio dos sentidos que lhe atribui [...] torna a Educação Ambiental como mediadora para uma leitura e interpretação sobre a realidade. Esta perspectiva nos apoiou para aprofundar o diálogo entre as representações dos estudantes e a possibilidade de compreender suas interpretações do mundo e de sua cultura. Assim, ao longo dos encontros e por meio dos diálogos, foi possível perceber as conexões estabelecidas entre sociedade e natureza, sua representação e simbologia nas ações cotidianas dos estudantes, bem como a forma como os participantes manifestam e atribuem significado as suas representações.

Além disso, os dados demonstram que nas representações expressas pelos participantes há uma preocupação com os problemas ambientais e sobre a busca de alternativas que respondam a tal problemática. Neste sentido, destacamos a manifestação do participante P5, pois o mesmo afirma que a escola colabora com as questões ambientais, mas que muitos estudantes não fazem a sua parte, ou seja, há uma necessidade de maior responsabilidade por parte de muitas pessoas. Por outro lado, os participantes P8 e P13 apontaram alternativas que remetem ao compromisso de todos para um ambiente “conservado”, o que denota uma preocupação de que as ações sejam compreendidas como coletivas.

Ao pensar que a construção da cultura da sustentabilidade exige o envolvimento comunitário e social, fica evidente que a interpretação da realidade, feita individualmente e a partir de determinados valores, necessita encontrar espaços de debate e de trocas para que tome sentido no contexto coletivo, a partir do olhar e da relação com o Outro. Neste sentido, Sorrentino (2011) destaca que o compromisso de cada um é essencial para a implementação das mudanças que o momento e as questões socioambientais exigem, mas que precisamos transcender as perspectivas individuais.

No sexto encontro com o Grupo Ambiental foi proposta uma atividade de visita a um centro comercial. Essa estratégia de saída de campo teve o objetivo de observar o comportamento dos consumidores e ao mesmo tempo problematizar os padrões de consumo de cada um dos participantes do grupo. Também teve a intenção de aprofundar o debate sobre o tema gerador proposto nos Círculos de Cultura e potencializar as discussões e percepções a respeito deste tema.
 



(Imagen Flicr)
 

Ao observar o comportamento dos consumidores, os estudantes foram estimulados a comentar os temas que já haviam sido discutidos e refletir sobre eles. A atividade despertou forte curiosidade e inquietações entre os estudantes, pois os centros comerciais fazem parte de seu cotidiano e a visita, junto ao grupo, possibilitou ver aquele espaço com outra perspectiva.

Neste encontro, ao observar a dinâmica de consumo dos centros comerciais, os participantes puderam ressignificar seus conhecimentos em relação às discussões que já haviam sido realizadas nos Círculos de Cultura. Quatro aspectos chamaram a atenção do grupo: a) a grande quantidade de pessoas circulando nos corredores do centro comercial em um dia normal de trabalho. b) A diferença entre a quantidade de pessoas que circulam nos dias de trabalho em relação ao maior número de frequentadores que visitam estes centros comerciais nos finais de semana, feriados e/ou os dias próximos de datas comemorativas; c) a quantidade de resíduos que é produzida no espaço destinado a bares, lanchonetes e restaurantes (praça de alimentação); d) a falta de uma política de sustentabilidade referente ao descarte e separação dos resíduos gerados na praça de alimentação do estabelecimento. Neste local não foram identificados materiais de comunicação com orientações sobre isto.

Um dos participantes ressaltou que havia gostado da visita ao centro comercial porque nunca havia pensado e relacionado tantos aspectos sobre o consumo. Segundo ele, a experiência foi diferente das outras oportunidades em que visitou o mesmo local, sozinho ou com familiares. Dois elementos podem ter sido determinantes na interpretação deste estudante, por um lado a sensibilização e o conhecimento prévio adquirido sobre o tema, e por outro, a possibilidade de realizar uma interação com outros sujeitos interessados na discussão de uma mesma temática, neste caso, o consumo responsável.

Esta possibilidade de participação e interação com outros sujeitos - um dos princípios da pesquisa participante e dos Círculos de Cultura – nos permitiu repensar as práticas de Educação Ambiental e ampliar sua perspectiva transformadora, potencializadora da autonomia e a da emancipação dos sujeitos e coletividades, conforme aponta Lima (2011).

 A visita ao centro comercial para observação e discussão sobre os comportamentos relacionados ao consumo permitiu aos participantes ampliar seu repertório de argumentos durante os Círculos de Cultura. Neste sentido, vale ressaltar que os participantes tiveram a oportunidade de relacionar, de um modo participativo e interativo, a cadeia produtiva, considerando a extração de matérias-primas do meio ambiente, o processo produtivo, a comercialização, o consumo e a geração de resíduos.

Sobre a importância da realização de trabalhos com metodologias diferenciadas, a exemplo da atividade de observação realizada no centro comercial, os estudantes enfatizaram que a cultura do consumo está impregnada nas pessoas e se manifesta em seus hábitos cotidianos. A maioria reconhece que o consumo, geralmente, vai além da necessidade humana, ocasionando diversos problemas ambientais que afetam a sociedade. 

Para compreender o processo de construção e aprofundamento dos conhecimentos e as percepções manifestadas pelos estudantes em relação à problemática ambiental abordada, foi aplicado um segundo questionário contendo dez questões abertas. As cinco primeiras questões serviram como elementos de comparação entre os posicionamentos dos estudantes antes dos encontros e após a finalização do processo. As questões seguintes tinham por objetivo a análise da experiência com o Grupo Ambiental e a interpretação das vivências.

A análise dos dados do questionário permitiu perceber mudanças na forma como os estudantes conceituavam o meio ambiente, tendo em vista que após os encontros, novos elementos e relações foram sendo consideradas, o que permitiu um adensamento de elementos e inter-relações. Com exceção dos participantes P9 e P12, os demais participantes ampliaram seus entendimentos e transcenderam os limites de uma perspectiva naturalista e conservacionista em relação ao meio ambiente. Foi possível perceber que, ao discutir as questões sobre o estilo de consumo de determinadas sociedades, os participantes perceberam que há uma interdependência entre comportamentos sociais e meio ambiente. Os participantes apoiaram-se também na premissa de que esta interdependência está mediada por valores e práticas culturais, nem sempre coerentes com os princípios de sustentabilidade ambiental. Nesse sentido, o Círculo de Cultura, tomado como um espaço educativo, estimulador de processos dialógicos e interculturais, possibilitou a interação entre os participantes e contribuiu para a construção de uma noção mais complexa sobre os conceitos de meio ambiente e sustentabilidade ambiental.

Quando questionados sobre a influência dos encontros na forma como percebem a sua relação com o meio ambiente e o consumo, os participantes reconheceram em suas ações, com maior ou menor grau de consciência e responsabilidade, a necessidade de rever as formas de consumir, tendo em vista que este processo tem intercorrências ao meio ambiente. Entre as várias respostas que demonstram essa preocupação com o cuidado que devemos ter com o ambiente, destacam-se as respostas dos participantes P1, P5, P6 e P9. Suas afirmações denotam uma mudança de atitude em relação ao consumo e a tomada de consciência em relação as implicações que decorrem dos modos de produção e consumo revelados em determinados modelos de desenvolvimento locais e global.

Para Freire (1987), o conteúdo da educação não deve ser uma imposição ou um depósito de informes. Para ele, numa relação baseada no diálogo entre professor e estudantes, a centralidade deve estar na reflexão sobre a realidade, a fim de investigar situações reais e estimular possibilidades de pensar a mudança de posicionamentos e atitudes. Logo, a abordagem dos temas deve estar associada à vivência dos estudantes a partir de uma situação presente, existencial e concreta para que eles possam atribuir sentido dentro de determinado contexto. Por ser o consumo um tema/problema que faz parte do cotidiano dos estudantes, a problematização do mesmo possibilitou ao grupo um intenso processo de interação e a troca de ideias. A partir desta experiência foi possível identificar mudanças na forma de perceber a realidade e modificar alguns de seus pontos de vista.
 



(Imagen: Wikipedia)

 

Os Círculos de Cultura desempenharam um importante papel como estratégia para a obtenção dos resultados desta pesquisa. Esta metodologia permitiu que o grupo refletisse sobre sua cultura, seus valores, atitudes e comportamentos cotidianos. O posicionamento dos participantes em relação a experiência coletiva reflete a necessidade de repensarmos os rumos da educação e da Educação Ambiental sob uma perspectiva crítica, envolvendo os professores e os estudantes em seus diversos contextos sociais, com vistas a sua transformação. Assim, o diálogo por meio de temas geradores e/ou situações-problema precisa ser estimulado para que tome relevo nos grupos e comunidades.

Em relação aos processos dialógicos, Loureiro e Franco (2014), destacam que,

“o diálogo é uma forma de comunicação, potencializa saberes, valoriza a palavra e escuta dos participantes, possibilita o conhecimento e promove a transformação do mundo por meio da educação libertadora e transformadora” (Loureiro e Franco, 2014: 171-172).

Destarte, quando se discute um tema comum e de interesse de todos, como no caso do tema gerador desta pesquisa, o resultado da aprendizagem emerge como algo material, possível e real, pleno de um grande potencial de significação e simbolismo.

 

Considerações finais

Esta pesquisa evidenciou o problema da fragilidade e da ausência de atividades de cunho ambiental nos espaços escolares e a necessidade das escolas proporem novas metodologias que favoreçam a abordagem das questões ambientais em diferentes áreas do conhecimento. A experiência evidenciou a necessidade de levar todos os atores a pensar o jeito de se fazer Educação Ambiental, envolvendo-os e motivando na participação de toda a comunidade escolar. Nesse sentido, o Círculo de Cultura emerge como uma possibilidade de diálogo intercultural, por suas características e por considerar os participantes como sujeitos ativos de todo o processo, a partir do diálogo e da interação. 

O trabalho com o Grupo Ambiental realizado em contraturno escolar representa uma possibilidade para que a Educação Ambiental conquiste um tempo e espaço, mesmo que mínimo, na vida dos estudantes. Porém, cabe ressaltar que, uma atividade em contraturno escolar não obrigatória, ou seja, pode estar desarticulada do currículo, o que traz consigo algumas dificuldades evidenciadas durante a pesquisa. Sobre isto, vale ressaltar que ao longo do processo houveram alguns entraves, tais como: ausência de alguns participantes em determinados encontros; incompatibilidade de horários dos pais ou responsáveis para que os estudantes pudessem ir até a escola; questões relacionadas a logística (alimentação e transporte escolar); segurança dos estudantes, entre outras situações.

Em relação à experiência de formação com os estudantes via Grupo Ambiental, destacam-se quatro aspectos: a) a necessidade do debate sobre as diversas temáticas ambientais, em especial a questão do consumo e geração de resíduos; b) a faixa etária dos participantes que, em alguns momentos, não correspondeu ao método utilizado. Isto pode ser justificado pela imaturidade de alguns participantes ou pelo fato de que os estudantes passaram a integrar um novo grupo, com pessoas diferentes de seu convívio diário, gerando inibições e timidez nos momentos em que se fazia necessária a exposição oral; c) o avanço dos participantes durante o processo, o aprendizado obtido por meio dos diversos recursos utilizados nos encontros e a interação entre os membros durante as abordagens temáticas; d) a evidência de que os estudantes demonstraram desejo por ações e atividades diferenciadas na escola, bem como o interesse pela abordagem de temas relacionados ao meio ambiente.

Por fim, ressalta-se que o trabalho contínuo com o Grupo Ambiental emerge como uma possibilidade de garantir o desenvolvimento de ações ambientais no espaço escolar. A experiência demonstrou que este tipo de ação coletiva possibilita a concretização de espaços para problematizar temáticas acerca da cultura do consumo e da sustentabilidade. E, ainda, pode garantir espaço e tempo para a Educação Ambiental no processo de formação dos estudantes, potencializando as suas interpretações, reflexões e ações, não só na escola, mas no cotidiano de suas vivências.

 



Referências

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